Transtorno do jogo · Belo Horizonte
A ludopatia é um transtorno mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. Ela altera os circuitos cerebrais ligados à recompensa e ao controle dos impulsos, e é por isso que a pessoa continua apostando mesmo querendo parar.
Não se resolve com força de vontade. Se trata, com avaliação médica e um plano construído para o seu caso.
Atendimento sigiloso, na clínica em Lourdes
Dr. Geraldo Costa Silvestrini explica o que é a ludopatia
de brasileiros apostaram nos últimos 12 meses, o equivalente a 17,6% da população de 14 anos ou mais.
apostam com algum grau de risco de desenvolver o transtorno do jogo.
foi o aumento dos atendimentos por jogo patológico no SUS entre janeiro de 2018 e maio de 2025.
de quem tem problemas com apostas apresenta também outro transtorno mental.
Fontes: III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), UNIFESP e SENAD, dados de 2023. Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, Ministério da Saúde, 2026.
O que está acontecendo
A ludopatia aparece na Classificação Internacional de Doenças da OMS sob o código 6C50, com o nome de transtorno do jogo. Está no mesmo grupo das dependências, ao lado do álcool e de outras substâncias, porque produz no cérebro um efeito parecido.
Cada aposta aciona o sistema de recompensa. A expectativa do ganho libera dopamina, e a incerteza do resultado torna esse estímulo ainda mais potente do que o ganho em si. Com o tempo, o cérebro se adapta: é preciso apostar mais, com mais frequência, para sentir o mesmo. E parar passa a produzir inquietação, irritabilidade e um desconforto difícil de suportar.
É por isso que a promessa de que "amanhã eu paro" se repete tantas vezes sem se cumprir. Não é fraqueza moral. É um circuito cerebral funcionando de forma alterada, e isso é exatamente o que um tratamento médico consegue endereçar.
Quem aposta por lazer estabelece um limite e consegue respeitá-lo. Encerra quando decide encerrar, e a aposta ocupa um espaço pequeno na vida.
No transtorno do jogo, o limite é ultrapassado repetidamente. A pessoa volta para recuperar o que perdeu, esconde o quanto joga, sacrifica compromissos e continua mesmo diante de prejuízos claros no dinheiro, no trabalho e nas relações.
A fronteira não está no valor apostado. Está na perda do controle.
Sinais de alerta
Esta lista não faz diagnóstico. Ela serve para dar nome ao que talvez você já venha percebendo, em você ou em alguém próximo.
Pensar em apostas ao longo do dia, planejando a próxima ou revivendo a anterior.
Precisar apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção.
Voltar a apostar no dia seguinte para tentar recuperar o que perdeu.
Tentar parar ou reduzir e não conseguir sustentar a decisão.
Ficar irritado, ansioso ou inquieto quando fica sem apostar.
Apostar para aliviar angústia, tédio, culpa ou problemas que parecem sem saída.
Mentir para a família sobre quanto tempo e quanto dinheiro estão indo para o jogo.
Pedir dinheiro emprestado, atrasar contas ou recorrer a empréstimos para cobrir perdas.
Perder rendimento no trabalho, faltar a compromissos ou se afastar de quem está por perto.
Se você reconheceu vários desses sinais, considere procurar uma avaliação com um médico psiquiatra. Reconhecer é a parte difícil, e você já a fez.
Por que agora
Esperar raramente melhora o quadro, e há três razões clínicas concretas para isso.
O mesmo valor apostado deixa de produzir o mesmo efeito. A tendência natural do quadro é a escalada: apostas maiores, mais frequentes e mais difíceis de interromper. Quanto mais cedo o tratamento começa, menor o terreno a recuperar.
O prejuízo financeiro empurra a pessoa a apostar de novo para tentar reverter, o que aprofunda o buraco e alimenta o ciclo. Cada mês de espera costuma significar mais dívida, mais segredo e menos margem para negociar uma saída.
A OMS associa os problemas com apostas a ansiedade, depressão e a um risco aumentado de autolesão e suicídio. Quando o transtorno do jogo caminha sozinho por muito tempo, o tratamento passa a lidar com um quadro mais complexo.
O tratamento
O percurso é individual e definido em conjunto na primeira consulta. As etapas abaixo descrevem o que costuma acontecer.
Uma conversa detalhada sobre a história com o jogo, o momento de vida, o quadro emocional e o que já foi tentado antes. É aqui que se confirma o diagnóstico e se investigam condições associadas, como ansiedade, depressão e uso de álcool.
A partir da avaliação, o médico define a estratégia com você. Pode envolver psicoterapia, medicação quando houver indicação clínica, medidas de proteção financeira e um combinado sobre a participação da família.
Reduzir o contato com o estímulo faz parte do tratamento. Isso inclui orientação sobre autoexclusão nas plataformas, bloqueio de aplicativos e reorganização do controle do dinheiro no período inicial.
Tratar apenas o jogo e ignorar a depressão, a ansiedade ou a insônia que vieram junto costuma deixar o quadro instável. Os dois caminhos andam ao mesmo tempo.
Recaída é parte conhecida do curso das dependências e não significa fracasso. As consultas de seguimento servem para identificar gatilhos, ajustar o plano e sustentar o que já foi conquistado.
Cada pessoa responde de um jeito ao tratamento. A duração e os resultados variam conforme o caso, o momento em que a ajuda é procurada e as condições associadas, e serão discutidos com você durante o acompanhamento.
Quem vai te atender
Médico psiquiatra · Responsável técnico
Psiquiatra com experiência clínica e acadêmica, atua como consultor em saúde mental na atenção primária e como colaborador no ambulatório de saúde mental perinatal da UFMG. Foi preceptor do Curso de Medicina na Faculdade Atenas e preceptor em Saúde Mental na Residência de Medicina de Família da PUC Minas. Também atende em Centro de Atenção Psicossocial e Atenção Intermediária no SUS.
Para quem está por perto
Na maioria das vezes é a família que identifica o problema primeiro. Algumas atitudes ajudam, outras acabam prolongando o ciclo sem querer.
Familiares podem procurar a clínica para orientação sobre como conduzir a conversa e como organizar o ambiente até que a pessoa aceite ser avaliada.
O tratamento em si, porém, depende da presença e do consentimento de quem tem o transtorno. Ninguém é atendido à revelia.
Dúvidas frequentes
Sim. Tudo o que é dito em consulta está protegido pelo sigilo médico, previsto no Código de Ética Médica. Nada é compartilhado com familiares, empregadores ou terceiros sem a sua autorização.
Não. Buscar ajuda ainda apostando é o cenário mais comum, e é justamente por isso que o tratamento existe. Chegar sem ter conseguido parar sozinho não atrapalha nada.
Não há um medicamento específico aprovado para o transtorno do jogo. A medicação, quando indicada, costuma tratar condições associadas como depressão e ansiedade, ou auxiliar no controle dos impulsos. Essa decisão é individual e cabe ao médico avaliar caso a caso.
Não há um prazo fixo. Depende da gravidade do quadro, do tempo de evolução, das condições associadas e da resposta de cada pessoa. Isso é conversado com você já na avaliação inicial.
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